
Onte morreu José Saramago pero sempre nos quedará a súa obra.
Este é un deses fragmentos que ó lelo me emocionan e á vez me desperta certa envexa, algún día gustaríame ser capaz de escribir algo así. A súa fermosura déixame sen adxetivos.
"Nao podem imaginar que estao além três mulheres nuas, nuas como vieram ao mundo, parecem loucas, devem de estar loucas, pessoas em seu perfeito juízo nao se vao pôr a lavar numa varanda exposta aos reparos da vizinhaça, menos ainda naquela figura, que importa que todos estajamos cegos, sao coisas que nao se debem fazer, meu Deus, como vai escorrendo a chuva por elas abaixo, como desce entre os seios, como se demora e perde na escuridao do púbis, como enfim alaga e rodeia as coxas, talvez tenhamos pensado mal delas injustamente, talvez nao sejamos é capazes de ver o que de mais belo e glorioso aconteceu alguma vez na historia da cidade, cai do chao da varanda unha toalha de espuma, quem me dera ir com ela, caindo interminavelmente, limpo, purificado, nu. Só Deus nos vê, disse a mulher do primeiro cego, que, apesar dos desenganos e das contrariedades, mantém firme a crença de que Deus nao é cego, ao que a mulher do médico respondeu, Nem mesmo ele, o céu está tapado, só eu posso ver-vos, Estou feia, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Estás magra e suja, feia nunca o serás, E eu, perguntou a mulher do primeiro cego, Suja e magra como ela, nao tao bonita, mas mais do que eu,Tu és bonita, disse a rapariga dos óculos escuros, Como podes sabê-lo, se nunca me viste, Sonhei duas veces contigo, Quando, a segunda foi esta noite, Estabas a sonhar com a casa porque te sentias segura e tranquila, é natural, depois de tudo por que passámos, no teu sonho eu era a casa, e como, para ver-me precisabas de pôr-me uma cara, investaste-a, Eu também te vejo bonita, e nunca sohei contigo, disse a mulher do primeiro cego, O que só vem demostrar que a cegueira é a providência dos feios,Tu nao és feia, Nao, de facto nao o sou, mas a idade, Quantos anos tens, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Vou-me chegando aos cinquenta, Como a minha mae, E ela, Ela, que, Continua a ser bonita, Já foi mais, É o que acontece a todos nós, sempre fomos mais alguma vez, Tu nunca foste tanto, disse a mulher do primeiro cego. As palabras sao assim, disfarçam muito, vao-se juntando umas con as outras, parece que nao sabem aonde querem ir, e de repente saem, simples en si mesmas, un pronome pessoal, un advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoçao a subir irresistível à superfície de pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, às veces sao os nervos que nao podem aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura, diz-se A mulher do médico tem nervos de aço, e afinal a mulher do médico está desfeita em lágrimas por obra de un pronome pessoal, de um advérbio, de um verbo, de um adjectivo, meras categorias gramaticais, meros designativos, como o sao igualmente as duas mulleres mais, as outras, pronomes indefinidos, tambén eles chorosos, que se abraçam à da oraçao completa, três graças nuas sob a chuva que cai."
Ensaio sobre a cegueira, José Saramago
Posto por Fror de Toxo